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O desafio de conciliar carreira executiva e vida familiar: lições para um equilíbrio saudável


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Uma reflexão sobre como líderes podem (e devem) transformar a presença familiar em parte essencial de sua liderança


Nos dias de hoje, onde o ritmo acelerado do mundo corporativo muitas vezes dita a vida dos executivos, é cada vez mais raro ouvir sobre líderes que conseguem equilibrar de maneira exemplar a vida profissional com a familiar. Para muitos, o tempo dedicado ao trabalho se traduz em horas ausentes em casa, sacrificando momentos cruciais com os filhos e a família. No entanto, essa realidade não precisa ser uma regra.


Recentemente, enquanto estava no aeroporto, encontrei um amigo que me disse: “Estou me aposentando e, como não vi meus filhos crescerem, quero ter a oportunidade de ver meus netos.” Essa reflexão me tocou profundamente, pois representa o dilema que muitos executivos enfrentam: a luta constante para conciliar o tempo com a família e as demandas do trabalho. Esse dilema não é exclusivo de poucos; ele é vivido por muitos líderes corporativos que se encontram em uma luta entre a dedicação ao sucesso profissional e a presença na vida familiar.


De acordo com um estudo da Harvard Business Review, 62% dos executivos se sentem culpados por não passarem tempo suficiente com suas famílias devido às pressões do trabalho. Isso reflete a realidade de muitos pais e mães que, ocupando posições de liderança, precisam constantemente equilibrar as responsabilidades profissionais e familiares.


Como executivo, sempre me espantou o fato de que muitos colegas consideram exceção um pai que se envolve profundamente na vida dos filhos. Para mim, isso deveria ser o normal. Ser presente na vida familiar, mesmo ocupando um cargo de liderança, não deveria ser uma surpresa. Um amigo comentou certa vez: “Como é bacana ver os seus filhos com você.” Esse tipo de comentário revela o quanto a sociedade ainda espera que o papel de um executivo ou executiva esteja distante da vida familiar, como se fosse impossível conciliar os dois.


Esse paradigma precisa ser quebrado. Ao longo da minha carreira, percebi que é possível criar um equilíbrio saudável entre trabalho e família. Além disso, estar presente na vida dos filhos traz uma recompensa inestimável. Recentemente, minha filha me disse: “Pai, você é o meu primeiro amor. Eu quero ter uma pessoa que me acompanhe e que seja exatamente como você, um pai presente que ama sua família.” Esse tipo de declaração revela o impacto profundo que nossa presença tem sobre nossos filhos, moldando suas expectativas e o conceito de família que eles levarão para o futuro.


Infelizmente, muitos executivos tentam compensar a ausência com muitas outras coisas, até mesmo materiais, mas a verdade é que os filhos querem atenção e uma presença constante e significativa. Quando pais se escondem por trás de presentes, acabam criando filhos frágeis, sem referências sólidas, e muitas vezes interesseiros. O que as crianças realmente precisam é de atenção, orientação e, sobretudo, um exemplo de vida equilibrada.


O papel da liderança paterna na formação de caráter e valores


A pressão da vida corporativa muitas vezes leva pais e mães executivos a tomar decisões difíceis quando se trata da educação dos filhos. Com frequência, vejo colegas que, por culpa da ausência, evitam corrigir comportamentos inadequados, com medo de “desagradar” seus filhos. Mas esse é um erro. As crianças precisam de referências firmes e orientações claras. Não se trata apenas de ser um amigo, mas de ser um pai ou mãe — e isso, às vezes, implica em desagradar.


Lembro-me de uma conversa com minha filha, que me contou sobre crianças que tratavam seus pais com grosseria, e os pais, em vez de corrigirem o comportamento, recuavam, talvez por culpa de não estarem presentes o suficiente. Esse comportamento de “ceder” pode ser um sintoma de algo mais profundo. Muitas vezes, os executivos que negligenciam a educação dos filhos também estão deixando de lado outras áreas importantes de suas vidas, como a saúde física e mental, ou até mesmo os relacionamentos com seus próprios pais.


E mesmo que, no momento, os filhos não gostem das correções, essas intervenções são essenciais para a formação de caráter e valores. Meus próprios filhos já me disseram: “Pai, aquilo que você me disse lá atrás, na hora eu achei duro e não gostei, mas hoje entendo perfeitamente.” Isso só reforça a importância de ser coerente. A mensagem pode desagradar inicialmente, mas o impacto duradouro de uma orientação firme é muito mais valioso do que a satisfação momentânea de “deixar passar”.


Estudos da McKinsey & Company mostram que 50% dos executivos relatam dificuldades em equilibrar a vida pessoal e profissional, e 43% apresentaram sintomas de burnout relacionados ao excesso de trabalho. No entanto, líderes que conseguem criar um equilíbrio entre essas duas áreas apresentam uma performance 20% mais alta e relatam maior satisfação pessoal. Esses dados mostram que o esforço para encontrar esse equilíbrio não beneficia apenas a família, mas também melhora o desempenho no trabalho.


Mas como encontrar esse equilíbrio? Primeiro, é essencial compreender que a liderança familiar é diferente da liderança empresarial. Os filhos não precisam de um chefe; eles precisam de um pai ou mãe que seja um exemplo de presença, carinho e disponibilidade. O segredo está em saber dosar e aplicar as mesmas habilidades de liderança e organização, tão necessárias no mundo dos negócios, dentro de casa. Isso significa estabelecer limites e prioridades, tanto na vida pessoal quanto na profissional.

Acredito que devemos começar, mesmo sem sermos perfeitos, a transformar essa capacidade que temos de orquestrar negócios em algo que também aplicamos na família. A liderança familiar é uma jornada contínua de aprendizado e ajustamento, onde o verdadeiro sucesso vem do exemplo que damos diariamente. Não há antagonismo entre ser um bom pai ou mãe e um profissional de sucesso. Pelo contrário, esses papéis se complementam e enriquecem.


Assim, ao refletirmos sobre o equilíbrio entre vida familiar e profissional, devemos lembrar que a presença e a liderança que exercemos dentro de casa são tão importantes quanto as conquistas no ambiente de trabalho. Que possamos ser exemplos de pais presentes e profissionais realizados, mostrando que é possível conciliar ambos com sucesso.


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